Por cerca de dez anos, Gisèle Pelicot foi dopada pelo próprio marido, Dominique Pelicot, que a deixava inconsciente para que dezenas de homens a estuprassem dentro da casa onde viviam, no sul da França. Ele filmava e arquivava os abusos de forma organizada.
O caso, revelado em 2020, tornou-se um dos crimes mais perturbadores da história recente do país e transformou Gisèle em um símbolo internacional de coragem após ela decidir tornar sua identidade pública durante o julgamento.
O crime e os anos de abuso
As investigações revelaram que Dominique misturava ansiolíticos e sedativos na comida e na bebida da esposa sem que ela soubesse. Os medicamentos a deixavam profundamente sedada, incapaz de reagir ou lembrar do que havia acontecido.
Enquanto Gisèle estava inconsciente, ele convidava homens que conhecia pela internet, principalmente em fóruns de discussão online, para ir até a casa do casal, na pequena comuna de Mazan. Lá, os abusos eram cometidos enquanto Dominique filmava e fotografava tudo.
Os arquivos eram organizados com datas e nomes, evidenciando que os crimes ocorreram de forma sistemática ao longo de uma década. Desde 2011, Gisèle apresentava sinais clínicos sem diagnóstico definido, como lapsos de memória, fadiga intensa e problemas físicos recorrentes, sem imaginar que estava sendo vítima do próprio marido.
A descoberta começou com um crime menor
O caso veio à tona em setembro de 2020, quando Dominique foi flagrado por seguranças de um supermercado em Carpentras filmando secretamente sob as saias de mulheres.
A polícia apreendeu seus equipamentos eletrônicos e, ao analisar o material, encontrou centenas de fotos e vídeos que documentavam os estupros.
No dia 2 de novembro de 2020, Gisèle descobriu a verdade ao ser chamada pela polícia e confrontada com as imagens.
Mais de 50 homens foram identificados
A análise dos arquivos permitiu identificar mais de 50 homens envolvidos. Muitos confessaram; outros alegaram acreditar que se tratava de um ato consensual, argumento rejeitado pela acusação, já que a vítima estava inconsciente.
Dominique foi acusado de estupro agravado, administração de substâncias sem consentimento e produção de material criminoso. O julgamento ocorreu em Avignon entre setembro e dezembro de 2024 e provocou comoção nacional. Ele foi condenado à pena máxima de 20 anos de prisão. Os demais acusados receberam penas entre cinco e 15 anos.
A decisão de romper o anonimato
Gisèle abriu mão do direito ao anonimato, uma escolha incomum em casos de violência sexual. Sua decisão foi vista como um ato de coragem e ajudou a ampliar o debate sobre consentimento e responsabilidade.
Após o julgamento, ela lançou o livro Et la joie de vivre. A edição brasileira, publicada pela Companhia das Letras com o título Um hino à vida: a vergonha precisa mudar de lado, foi lançada no dia 24 de fevereiro de 2026.
Sua história transformou um crime de violência extrema em um símbolo de coragem, força e resistência.
