O governo da Espanha anunciou nesta segunda-feira (30) o fechamento de seu espaço aéreo para aeronaves dos Estados Unidos que participam da guerra contra o Irã. A decisão, confirmada pela ministra da Defesa, Margarita Robles, amplia medidas anteriores do país ibérico que já proibiam o uso de bases militares operadas em conjunto com os americanos.
A restrição atinge não apenas aviões diretamente envolvidos em bombardeios, mas também aeronaves de apoio, como os aviões-tanque de reabastecimento, inclusive aquelas posicionadas em outros países europeus. A única exceção prevista é para situações de emergência, quando o trânsito pelo espaço aéreo espanhol e a aterrissagem são autorizados.
“Não autorizamos o uso de bases militares nem o uso do espaço aéreo para ações relacionadas à guerra no Irã”, declarou Robles em Madri. A ministra reforçou que a posição foi comunicada “clarissimamente” aos Estados Unidos desde o início da operação militar no Oriente Médio.
Posicionamento contundente contra a guerra
O primeiro-ministro espanhol, Pedro Sánchez, tem se destacado como um dos críticos mais enfáticos da ofensiva liderada pelos Estados Unidos e Israel contra o Irã. Em pronunciamento ao Congresso Nacional, Sánchez classificou a intervenção como “ilegal” e reafirmou a recusa do país em participar ou contribuir com as ações militares.
“Negamos aos EUA o uso das bases de Rota e Morón para esta guerra ilegal. Todos os planos de voo envolvendo ações relacionadas à operação no Irã foram rejeitados. Todos eles, inclusive os dos aviões de reabastecimento”.
A Espanha é sede de duas bases militares operadas em conjunto com os Estados Unidos: Rota, na província de Cádiz, e Morón, em Sevilha. Ambas são utilizadas tradicionalmente como pontos de apoio logístico para operações americanas na região. O acordo bilateral que rege essa cooperação, no entanto, não obriga o país europeu a autorizar seu uso em conflitos aos quais se opõe.
Impacto nas operações militares americanas
O fechamento do espaço aéreo espanhol afeta diretamente a logística das operações militares americanas no Oriente Médio. Aeronaves como os bombardeiros B-2 Spirit, que decolam da base de Whiteman, no Missouri, realizam voos de mais de 30 horas para atacar alvos no Irã e retornam sem escalas. Essas aeronaves frequentemente utilizam rotas que sobrevoam o espaço aéreo espanhol ou dependem do apoio de aeronaves-tanque baseadas na região.
Com a decisão da Espanha, os aviões militares são obrigados a contornar a Península Ibérica, alongando as rotas e potencialmente aumentando a complexidade logística das missões.
Apesar do fechamento para operações relacionadas à guerra, permanecem ativas as missões americanas previstas em acordos bilaterais de defesa, bem como o apoio logístico às tropas dos EUA estacionadas na Europa. Além disso, a assistência técnica à navegação aérea prestada pelo centro de controle de Sevilha continua sendo oferecida para voos que não entram no espaço aéreo espanhol, mas atravessam o Estreito de Gibraltar.
Tensão diplomática com Washinton
A resolução espanhola ocorre em um contexto de crescente tensão entre os dois governos. O presidente norte-americano, Donald Trump, já havia ameaçado cortar relações comerciais com Madri em resposta à recusa anterior do uso das bases militares. Até o momento, Washington não se pronunciou oficialmente sobre o novo anúncio.
Esta não é a primeira divergência entre Sánchez e Trump em temas militares. No ano passado, quando os países da Organização do Tratado do Atlântico Norte (Otan) concordaram em investir pelo menos 5% do Produto Interno Bruto (PIB) em defesa até 2035, a Espanha foi o único país da aliança a se recusar a se comprometer com a nova meta. Na ocasião, Trump sugeriu que o país ibérico fosse expulso da Otan.
Histórico de divergências com Israel
A oposição às operações militares no Oriente Médio não se restringe ao conflito atual com o Irã. Sánchez já havia adotado posições contundentes contra Israel, grande aliado dos Estados Unidos na região. Entre elas, destacam-se a classificação da ofensiva israelense na Faixa de Gaza como “genocídio”, o reconhecimento do Estado palestino e a adesão ao processo movido pela África do Sul contra Israel na Corte Internacional de Justiça (CIJ).
Essas posturas contribuíram para um distanciamento progressivo entre Madri e Washington, que agora se aprofunda com o fechamento do espaço aéreo e das bases militares para as operações contra o Irã.
A decisão mantém-se em vigor enquanto durarem as operações militares no Oriente Médio. O governo de Pedro Sánchez sinaliza que não pretende recuar, mesmo diante das pressões internacionais. A medida coloca a Espanha em uma posição de destaque entre os países europeus que têm se oposto publicamente à condução do conflito pelos Estados Unidos e Israel.
Enquanto isso, a comunidade internacional acompanha os desdobramentos diplomáticos entre os dois países, que compartilham uma aliança militar na Otan, mas divergem fundamentalmente sobre a legalidade e a condução da guerra no Oriente Médio.
