No centro de mais um episódio que mistura os poderes da República, investigações policiais e mensagens cifradas, uma pergunta simples insiste em não encontrar resposta definitiva: para quem o ex-controlador do Banco Master, Daniel Vorcaro, enviou uma mensagem horas antes de ser preso, em 17 de novembro de 2025?
A frase, curta e objetiva, foi escrita por Vorcaro no bloco de notas do celular e transformada em print: "Alguma novidade? Conseguiu ter notícia ou bloquear?" Segundos depois, a imagem foi enviada via WhatsApp com configuração de visualização única. O conteúdo, no entanto, sobreviveu no álbum de fotos do aparelho do remetente e foi recuperado pela Polícia Federal.
Desde que a existência dessas mensagens veio a público, duas versões tentam explicar o episódio. A primeira, sustentada pelo ministro Alexandre de Moraes e agora por sua esposa, nega qualquer vínculo com as mensagens. A segunda, baseada nos indícios técnicos da PF, aponta que o destinatário seria justamente o ministro do STF ou sua mulher.
No último sábado (07/03), a advogada Viviane Barci de Moraes se manifestou por meio de sua assessoria. Em nota, ela afirmou de forma taxativa: "A dra. Viviane Barci de Moraes informa que não recebeu as referidas mensagens".
A declaração é curta, mas seus efeitos são profundos. Isso porque, dois dias antes, o próprio ministro Alexandre de Moraes havia divulgado nota oficial na qual negava ter recebido as mensagens e apresentava uma tese para explicar por que seu nome aparecia associado a elas.
Segundo Moraes, os prints extraídos do celular de Vorcaro estavam arquivados, no sistema da PF, em pastas digitais junto com fichas de contatos de outras pessoas. Isso indicaria que os verdadeiros destinatários seriam esses outros contatos, e não ele. "A mensagem e o respectivo contato estão na mesma pasta do computador de quem fez os prints. Ou seja, fica demonstrado que as mensagens estão vinculadas a outros contatos telefônicos, jamais ao ministro Alexandre de Moraes", dizia a nota.
O problema é que, na organização dos arquivos, o contato de Viviane, registrado como "Vivi Moraes", aparece justamente na mesma pasta de um dos prints. A coincidência não prova que ela foi a destinatária, mas fragiliza o argumento central usado por Moraes para se eximir de qualquer ligação com o caso.
O que dizem os peritos sobre a organização dos arquivos
Especialistas em perícia digital explicam que a forma como os arquivos aparecem organizados após a extração de dados de um celular não permite, por si só, identificar automaticamente o destinatário de uma mensagem.
Isso ocorre porque os programas utilizados em investigações forenses reorganizam os arquivos com base em critérios técnicos destinados a preservar a integridade das evidências. Esse procedimento pode fazer com que mensagens e contatos sejam agrupados em pastas de forma artificial, sem relação direta com o fluxo real das comunicações.
Em outras palavras: o fato de um print estar na mesma pasta digital que o contato "Vivi Moraes" não significa, tecnicamente, que a mensagem foi enviada a ela. Mas também não significa o oposto. A única forma de saber com certeza seria acessar os metadados originais do envio ou ouvir o depoimento do próprio envolvido.
Até agora, Daniel Vorcaro não se manifestou publicamente sobre o caso.
Um dos aspectos mais peculiares da investigação é o método utilizado por Vorcaro para se comunicar. Segundo relatórios da PF, o ex-banqueiro escrevia suas mensagens no aplicativo "notas", fazia uma captura de tela e enviava a imagem via WhatsApp com visualização única ativada.
O recurso apaga automaticamente a mensagem assim que o destinatário a abre. No entanto, Vorcaro esquecia de apagar a imagem original do álbum de fotos do próprio celular. Foi assim que a PF recuperou dezenas de prints, todos com datas e horários exatos de criação que coincidem, segundo a investigação, com os registros de mensagens enviadas e apagadas tendo como destinatário o contato de Alexandre de Moraes.
A PF concluiu, a partir dessa correlação, que a interação entre Vorcaro e Moraes se dava justamente por esse método. O ministro nega, e agora sua mulher também nega ter recebido qualquer conteúdo.
O contrato milionário e os honorários da advogada
Outro elemento que cerca o caso é o vultoso contrato firmado entre o escritório de Viviane Barci e o Banco Master. De acordo com informações divulgadas pela imprensa, os honorários mensais foram fixados em R$ 3.646.529,77 por mês, com vigência de 36 meses. Ao final do período, o valor total alcançaria R$ 131.275.071,72.
Não se sabe se o contrato foi mantido ou rescindido após a prisão de Vorcaro. O escritório de Viviane também não se manifestou sobre o assunto. A existência de um vínculo financeiro dessa magnitude entre a esposa de um ministro do STF e um banqueiro investigado adiciona camadas extras de complexidade ao episódio.
A relação entre o conteúdo das mensagens, que mencionam "bloquear" e "ter notícia", e as investigações que levaram à prisão de Vorcaro também segue obscura. A frase sugere tentativa de obter informação privilegiada ou de interferir em alguma medida judicial, mas, sem o contexto completo da conversa e sem a identificação do interlocutor, qualquer conclusão permanece no campo das hipóteses.
Para além dos personagens envolvidos, o episódio reacende um debate caro à democracia brasileira: os limites entre a atuação institucional dos ministros do Supremo e sua vida privada. Não se trata de criminalizar relações profissionais, mas de questionar a transparência quando essas relações envolvem investigados que podem ter interesses em pautas que chegam à mais alta corte do país.
A nota do STF, ao tentar encerrar a questão com um argumento técnico frágil, e a negativa de Viviane, ao contradizer indiretamente a versão do marido sem apresentar provas, deixam o caso num limbo incômodo.
A Polícia Federal não se manifestou oficialmente sobre as declarações de Moraes e de sua esposa. Tampouco houve, até o momento, qualquer pedido de esclarecimento formal por parte de órgãos de controle externo. Enquanto isso, a mensagem de Vorcaro segue pairando no ar, sem destinatário certo, mas com consequências cada vez mais concretas para a imagem de uma das instituições mais poderosas do país.
