Mobilização Nacional

Governo vê motivação política em ameaça de greve dos caminhoneiros; categoria nega e culpa alta do diesel

Enquanto petistas apontam influência bolsonarista na mobilização, lideranças do setor afirmam que movimento é puramente econômico e reflexo da guerra no Oriente Médio

 

A ameaça de greve dos caminhoneiros abriu uma nova frente de disputa política no Brasil. De um lado, integrantes do governo Lula enxergam influência do bolsonarismo por trás da mobilização. De outro, lideranças do setor negam motivação partidária e atribuem o movimento exclusivamente ao aumento de quase 20% no preço do diesel desde o início da guerra no Oriente Médio.

O presidente da Associação Brasileira dos Condutores de Veículos Automotores (Abrava), Wallace Landim, afirma que a mobilização tem caráter "puramente econômico". "Pode ver que todas essas greves que foram chamadas nos últimos anos, eu sempre fui contra, porque de fato eram de cunho político. Nesse exato momento, a dor é econômica, como em 2018", declarou.

A leitura do governo

No Palácio do Planalto, no entanto, a avaliação é diferente. Integrantes do governo apontam que a velocidade com que grupos reagiram e a resistência imediata encontrada indicam intenções políticas em ano eleitoral. Petistas lembram que a última grande ameaça de paralisação ocorreu após a vitória de Lula em 2022, quando caminhoneiros fecharam rodovias questionando o resultado da eleição.

O deputado Lindbergh Farias (PT-RJ) foi além e acusou os Estados Unidos e Israel de estarem por trás da mobilização, com setores alinhados a Jair Bolsonaro se valendo da crise para pressionar o governo. "Trump e Israel iniciam uma guerra insana contra o Irã. O resultado? Aumento do petróleo. O que os bolsonaristas que apoiam Trump fazem? Culpam o Lula e incentivam greve de caminhoneiros", escreveu na rede social X.

No entanto, o movimento tem recebido apoio explícito de parlamentares de oposição. O deputado Zé Trovão (PL-SC) defendeu a greve em discurso no plenário, e o senador Cleitinho Azevedo (Republicanos-MG) manifestou apoio nas redes sociais. Para integrantes do governo, a adesão de bolsonaristas à causa reforça a suspeita de interesse em transformar pauta econômica em instrumento de desgaste político.

O que dizem os caminhoneiros

Segundo Landim, a decisão de cruzar os braços foi tomada em assembleia realizada na segunda-feira (16) em Santos, com a presença de lideranças do Rio Grande do Sul, Paraná, Goiás e Brasília. "Com esses altos preços de combustíveis, a categoria está pagando para trabalhar e não fecha a operação", afirmou.

"Caminhoneiro sai de um estado, chega no meio da viagem com o diesel a outro preço, chega no final da viagem, não tem nem recurso para voltar", completou.

O líder também reconhece que a categoria tem ciência de que a alta do diesel é um efeito do conflito no Oriente Médio, mas aponta que os donos de postos de combustíveis passaram a aumentar os preços na bomba mesmo antes do reajuste anunciado pela Petrobras. "Não temos mais possibilidade de trabalhar, é a mesma cena de 2018 — 'vale a pena ver de novo' ", disse.

Landim comunicou ainda que a iniciativa do governo de zerar o PIS/Cofins sobre o diesel foi insuficiente e defende medidas adicionais, além da reestatização da Petrobras Distribuidora, privatizada durante o governo Bolsonaro, para que a estatal possa ter maior controle dos preços praticados.

Para ele, a categoria está em interlocução com o governo por meio do Ministério dos Transportes e da Casa Civil, com participação no Fórum Permanente para o Transporte Rodoviário de Cargas (Fórum TRC).

O contexto econômico

O preço médio do diesel S-10 subiu 19,4% desde 28 de fevereiro, quando começaram os ataques de EUA e Israel contra o Irã. O movimento reflete o salto de 42,7% no valor do barril de petróleo Brent, consequência do fechamento do Estreito de Ormuz, por onde escoa 20% do petróleo mundial.

O governo federal anunciou medidas para conter a alta: zerou PIS/Cofins sobre o diesel e criou subsídios a produtores e importadores. Juntas, as iniciativas podem reduzir o preço em até R$ 0,64 por litro. No entanto, a Petrobras elevou o diesel em R$ 0,38 para as distribuidoras, anulando parte do efeito.

Mais tarde, o governo federal propôs aos estados a desoneração do Imposto sobre Circulação de Mercadorias e Serviços (ICMS) sobre a importação de diesel, com compensação de 50% da receita pela União, em uma renúncia total estimada em R$ 3 bilhões por mês.

O peso político da greve

A possível paralisação dos caminhoneiros tem peso político que vai além da questão econômica. O setor protagonizou uma greve de grande impacto em 2018, durante o governo Michel Temer, e qualquer movimento semelhante tende a ser lido como um termômetro da popularidade e da capacidade de gestão do presidente da República.

Para o economista Sergio Vale, da MB Associados, sem perspectiva de um desfecho para o conflito no Oriente Médio e com preços dos combustíveis pressionados no futuro próximo, o risco de uma greve que tenha impactos negativos para a economia é real. "O governo tenta reagir de alguma forma, coloca isenção, diminui o imposto, mas não é suficiente para impedir todo o impacto negativo do aumento do preço na economia nesse momento", assegurou.

A categoria reivindica também a implementação de medidas para garantir um preço mínimo operacional e a isenção de pedágio para caminhões vazios. O governo federal, por sua vez, segue monitorando a situação e tentando evitar uma paralisação que poderia ter consequências eleitorais imprevisíveis em um ano decisivo. A orientação do Planalto é manter os canais de diálogo abertos e apresentar respostas concretas às demandas da categoria, na expectativa de que a "dor econômica" não se transforme em combustível para a "guerra política" que se avizinha.

Compartilhar

Tags