O ensino superior brasileiro vive um dilema: nunca foi tão fácil se matricular, mas concluir o curso continua sendo um desafio crescente. Segundo o Mapa do Ensino Superior no Brasil 2026, elaborado pelo Instituto Semesp e divulgado nesta quinta-feira (19), a taxa de evasão nos cursos de Educação à Distância (EAD) atingiu 41,6%. Isso significa que, a cada dez alunos matriculados, quatro deixam o curso sem obter o diploma.
O cenário é menos alarmante, mas ainda preocupante no ensino presencial: a taxa de desistência foi de 24,8% no mesmo período. A evasão é caracterizada pelo abandono ou pela desistência formal do curso antes da conclusão.
De acordo com o diretor executivo do Samesp, Rodrigo Capelato, a grande diferença entre as modalidades, em grande parte, é a metodologia. O modelo EAD, para baratear as mensalidades, exige uma autonomia que nem sempre o aluno consegue sustentar.
“Quando o governo expandiu o financiamento estudantil, expandiu também a oferta. O caminho foi baratear [os cursos], fazer um valor muito baixo, em um modelo baseado no uso intensivo da tecnologia e no menor uso de recursos humanos. Então, vamos para um modelo de muita atividade assíncrona que é muito complicado para a questão da evasão porque o aluno faz quase tudo de forma autônoma, que é o ponto mais importante para a evasão no EAD ser tão maior que no presencial.”

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O levantamento detalha que a evasão não afeta a todos de forma igual:
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Rede Privada vs. Pública: A rede privada, que detém quase 96% das matrículas EAD, registra uma desistência de 41,9%. Na rede pública, o índice é de 32,2%.
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Perfil do Aluno: A evasão é maior entre adultos (25 anos ou mais), que representam 67,3% do corpo discente do EAD. A dificuldade em conciliar estudo, trabalho e renda é apontada como o principal fator para o abandono.
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Mega Instituições: Quanto maior a instituição, maior a taxa de desistência. Em grupos educacionais de "mega porte", a evasão acumulada chega a 69,2%.
Embora o EAD tenha se tornado a modalidade majoritária no país em 2024, superando 50% do total de matrículas, o Mapa do Ensino Superior indica que o setor vive um problema estrutural. O ciclo de 2020 a 2024 mostra uma realidade ainda mais dura: 68,1% dos que iniciaram um curso à distância no período desistiram no meio do caminho.
E, mesmo que o número total de matrículas tenha crescido 2,5% no último ano, os especialistas sublinham que "matricular não é formar".
O cenário recente coloca em pauta a ideia de que, sem políticas de apoio acadêmico e financiamento, o sonho do diploma continuará a ser interrompido para quase metade dos brasileiros.
